Corri… Durante anos corri…
Através da chuva, do vento, das folhas soltas que estalavam em murmúrios ao embaterem na minha face. Corri… Durante dias quentes e noites frias. Corri… Com o sol apoiado num ombro, com a lua reflectida no olhar. Corri… Até perder o fôlego, até perder as forças, até me perder a mim mesmo. Corri… Gastei-me no asfalto e cobri-me em camadas centenárias de terra. E corri… Sempre com mais rapidez, sempre com mais intensidade, sempre com mais afinco. Corri até não restar de mim mais do que o tempo se recusou a levar consigo.
E parei… Finalmente parei…
Abrandei forçosamente, por estas pernas já não saberem fazer algo mais que não seja correr. Sustendo a respiração, esperei que o mundo parasse comigo. Que a realidade parasse de se mover por um instante. Que as paisagens deixassem de formar um contínuo, que retomassem a sua identidade individual. E num suspiro liberto anos de sofrimento, anos de queixas contidas, anos de uma vida estruturada em calhas de titânio. Cheguei ao fim da minha estrada… Estou livre. Sinto-me livre…
Não tenho mais horizonte que olhar, não tenho nenhuma aurora que perseguir, não tenho mais nenhum cometa que me puxe. Agora simplesmente estou, não vou…
Pelo menos é o que a minha consciência me diz… Mas o meu coração não partilha da mesma opinião.
A cada dia que passa, cada pessoa que cruza o meu caminho… Em cada pedido de ajuda, em cada simples tristeza, em cada lágrima escondida. Há sempre algo que me chama, algo que me põe em chama. Agora que não tenho mais o mundo sobre as costas, o meu coração impõe-se veementemente.
Estou em queda livre sobre mim mesmo há demasiado tempo. Tenho as asas presas, restringidas, dolentes. Quero parar, irromper desta queda num voo único. Quero olhar de novo a lua e ver-me com um sorriso esquecido. Quero ser de novo um reduto de ternura, envolver de novo com as minhas asas, remover a escuridão com um gesto subtil.
Troquei quem sou, pelo que sou, durante tempo suficiente. Está na hora de reaver o que abdiquei. É a hora de me reunir comigo mesmo. É a hora de apontar para novos horizontes. Tenho de regressar ao velho sótão, soprar a poeira que os anos depositaram, e recomeçar a construir este puzzle que os anos me fizeram esquecer.
Sou a sombra que sempre te acompanha. Sou eu que estou do teu lado quando acordas. Sou eu que te aqueço enquanto procuras as tuas meias pela casa. Sou eu que seguro na tua mão enquanto tentas equilibrar uma chávena de café. E quando espreitas pela janela, quando tentas decidir despreocupadamente se é melhor saíres com um guarda-chuva, ou arriscar um dia de sol… Sou eu que te olho de volta, naquele reflexo que nem notas…
Sempre que caminhas, sou eu que te sopro levemente no pescoço. Sou eu que te acompanho todos os dias enquanto conduzes. Sou eu que te olho enquanto trabalhas, sou eu que te massajo os ombros quando te cansas, sou eu quem te encoraja com um murmúrio surdo entre um sorriso terno.
E ao parares no meio da rua, no meio de um mundo que não te sente, que não te vê, que não te quer… É a minha mão que encontras na tua. São os meus braços que encontras sobre o teu peito. É o meu corpo que sentes junto do teu.
Nas noites de tempestade, quando aquela tua tristeza te leva a melhor… Sempre que quiseres deixar-te cair, sempre que quiseres deixar-te simplesmente ir… É a minha mão que seca a tua face. São os meus olhos que procuram os teus. É o meu calor que é só teu. Sou eu que sou só e todo teu…
Enquanto tu nem a tua sombra vês…
http://www.youtube.com/watch?v=aoQ8pbtC5
Amor… Amor… Amor… Esta palavra é lançada em cada frase com uma leveza e casualidade inéditas. Afinal o que é realmente Amar alguém? Porque nos damos a alguém? Porque queremos sequer alguém a quem nos entregarmos? Porque corremos inconsequentemente atrás de algo que não faz verdadeiramente parte de nós?...
Amar será apenas uma necessidade? Assim parece… Qual comer, dormir, respirar… Mas posso fazer jejum. Posso manter-me acordado. Posso suster a respiração. E depois? Que parte de mim precisa realmente de amar? Que perco em abster-me de tal sentimento? Serei menos eu por não exercer essa fixação?
Ou… Será o Amor apenas um jogo? Uma actividade lúdica… Uma mão de póquer escorregadia? Uma fuga da realidade?... Será que amamos para não vermos? Será que realmente amamos para não termos de nos ver confrontados com a fraqueza das pessoas? Amar faz com que deixemos de nos preocupar, de julgar, de pensar… Ama-se e já está! É decididamente mais simples e mais fácil que enfrentar a realidade… Não é necessário reparar nos espinhos de uma rosa se apenas nos concentramos na sua beleza. Mas a vida não é dada a contemplações…
Será essa a causa de tantos divórcios?... Porque se casam as pessoas? Que entidade é essa? É o sonho do casamento branco? É o medo de deixar escapar a pessoa que se quer? Ou que se ama? Medo de ter de viver a realidade? Medo de ter de se bastar a si próprio? Não… Um casamento não faz de ninguém bons pais...
O Amor é uma rolha… É uma rolha que se enfia naquele espaço aberto na vida de alguém. É uma rolha que se enfia para tentar parar a fonte da solidão. É uma rolha que se enfia para evitar que as lágrimas caiam. É uma rolha que se enfia para não ter de ouvir a realidade. É uma rolha que se enfia para não ter de se pensar. É uma rolha que abafa a consciência…
É isso o Amor de que tanto se ouve falar?
A maioria das pessoas amam-se principalmente a si próprias. O amor por outrem é secundário… Carece de identidade e verdadeiro esforço. Quem tanto afirma que ama, apenas não quer estar sozinho…
Amor… Heh!… Torna-se quase caricato que quanto mais se fala em Amor menos se percebe o que a palavra significa...
Quantos podem dizer que amam alguém desinteressadamente? Este velho sentimento que se tornou uma moda… Não está seguro entre nós. Que fazemos nós por ele? Se não conseguirmos ser suficientes a nós próprios, se não conseguirmos bastar-nos, então como podemos aspirar a amar alguém? Como partilhamos parte do que não temos? Desde quando se tornou o amor um empréstimo?
Um Amor verdadeiro dura toda uma vida… Uma vez que se ama verdadeiramente alguém, há uma parte de nós que perdemos para sempre. O nosso coração torna-se uma propriedade segmentada… Por mais anos que passem, por mais pessoas que cruzem o nosso caminho, por mais vida que tenhamos pela frente… Nunca se esquece quem uma vez se amou.
50 anos volvidos… Basta um cheiro familiar. A forma como a luz entra pela janela de madrugada. Um fragmento de uma memória. Meia frase recordada de uma conversa esquecida. A sensação de uma presença familiar. O som de um relógio oculto. A imagem de um sorriso… Basta um qualquer nada insignificante para que se sinta um bater especial do coração. Aquela pequena falta de ar e um estremecer ligeiro que acompanha a sensação de calor e nostalgia… Aquela pequena parte de nós, que rendemos no passado, é uma companhia eterna…
Isso é Amar.
E o Amor não é um sentimento… É uma capacidade… http://www.youtube.com/watch?v=Y43fdtacm
Estacionário... Empedernido numa montanha de espaço, incrustado num compasso de tempo… O mundo move-se célere, com uma rapidez que me mantém em câmara lenta. Não avanço, não saio do sítio, estou cimentado às fundações da terra… E sinto o sol quente na face, que roda, que acompanha, que circunda o dia
Espero pela lua, pela sua luz que me passa por entre os dedos. Aguardo a sua aura e o seu frio glacial. A sua chamada para a vida… E desprendo-me do mundo. Solto-me da realidade como quem tenta respirar… Caio sobre as minhas costas sem tentar sequer reagir, sem o tentar evitar.
Queda silenciosa que ecoa no pensamento. Queda de mim sobre eu próprio, um mergulho na consciência, na inconsciência do ser e sentir… Como numa noite de nevoeiro, consigo ver as minhas memórias envoltas
Chovem gotas de pensamento… Gotas que não caem no chão. Gotas que abrandam e ficam suspensas em meu redor. O tempo que se interrompe novamente, o tempo que não flúi em mim, o tempo que parou de prosseguir a minha vida. E corro…
Com pesados passos de ecos mudos, corro pelo meu mundo estacionário… E embato nas gotas com que não me consigo molhar. Evitam-me, chocam entre si… Sinto como os meus pensamentos se misturam, se abalroam, se confundem. Tudo se turva e nada parece claro. Tento pensar em quem sou, no que quero, mas nada… Só uma mescla de sensações e intenções transparece. É um trocadilho que não se desenrola, que se agride a si próprio…
Num instante de desespero sereno, com lágrimas que se misturam com pensamentos, percebo a suspensão de mim próprio. Percebo o silêncio, a interrupção, o flocular averso ao fluxo da vida… Percebo o seu significado, as implicações da minha impaciência, da pressa com que as atravesso… E finalmente paro…
Paro de lamentar, paro de chorar, paro de tentar respirar debaixo de tanto ordinário. Reúno pacientemente as forças que me restam para me levantar. Aproximo-me de uma gota, uma simples e única gota. Num gesto simples e carinhoso segredo-lhe o meu coração e suavemente sopro-lhe a minha vida… Com um carinho que me foi ensinado, assim a conduzo até chegar a outra gota. Dou o calor do meu corpo em troca da sua fusão, da sua calma e controlada miscibilidade. E como se de magia se tratasse, formam uma só gota, uma só ideia que sinto voltar à minha mente. Com ânimo reassegurado, continuo a juntar gota a gota todos os pensamentos dispersos, todas as gotas que tanto me pertencem… Um a um, regressam os conceitos, os planos, os fundamentos de ser e fazer…
Termino com duas esferas de água suspensa, vítrea, profunda. Sacrifico o calor que me resta… Deposito todo o coração que possuo num segredar surdo e indecifrável… E grito cada momento da minha vida, cada lágrima que derramei, cada sorriso que esbocei, cada momento que me fez humano…
Num último esforço, toda esta água se revolve, me rodeia, se retorce e me permeia… Como se fosse a minha segunda pele, espalha-se sobre mim, recobre-me ternamente e desaparece através da minha superfície. E começa a chover de novo, aos poucos, mas a ceder… Lenta e hesitantemente…
Sei que algo me falta, algo nuclear no meu universo interior. Algo que chama por mim do meio da chuva, de entre toda a água que corre no chão. Dou por mim ajoelhado no solo, a tactear na escuridão por entre bátegas de água, torrentes de pensamentos que jorram com prontidão… E só aquela sensação me guia. O sentir que algo chama por mim, clama pela minha realização da sua existência. E por entre vias, planos, memórias, pensamentos, assim encontro…
Encontro a parte de mim que realmente naufragou neste mar intenso que escondo interiormente… O meu objectivo…
Essa chama antiga que fraquejou, que se tornou menos eterna do que costumava ser, e mais etérea do que alguma vez pensei que se tornasse… Mas não importa. Nada mais me preocupa, agora que a encontrei. Abraço essa chama para o meu interior mais profundo. Deixo que me ilumine e acalente como sempre o fez. Toda a minha vida serve de pavio para essa vela do meu objectivo, para o farol que me guia entre chuvas e tempestades, que me dá o meu mais subjectivo e real porto de abrigo…
Essa chama renovada rebate o sol da manhã, desperta-me uma vez mais. Crepita com a ânsia de se cumprir, com a força de uma vida inteira… Abro os olhos a desafiar o nascer de um novo dia. A minha chama esculpe a fogo na minha consciência e eu repito baixinho “----- --- - ----- ---------”…
Assim, para além de mim próprio, só mesmo o sol saberá porque motivo sorrio todas as manhãs…
Passa-me o mundo por entre os dedos… Olho as minhas mãos, a forma como se deixam descansar meio abertas, meio fechadas… Deslizo por cima das montanhas de papel que forram os meus dias, deixando que os meus braços cruzem, que a minha cabeça aterre no seu suporte. Fico com o nariz escondido entre os vincos da camisola, respirando o cheiro a papel e tinta. E olho pela janela… Vejo o sol nascente que me saúda como se sempre nos tivéssemos conhecido. E sem querer, solta-se o nó que atei no coração… Subitamente, sem aviso, sem controlo… E penso em ti…
Memórias desse sorriso… Da maneira como libertas um discreto suspiro, da forma nervosa como bates com os dedos na mesa, repetidamente, subtilmente… Recordo-me de te olhar nos olhos… De me sentir perder nesse olhar, de querer que o tempo parasse, de não tentar parar-te sequer. Lembro-me de sentir as minhas forças a desaparecer só por te ouvir respirar perto de mim… Só por te sentir do meu lado…
E as lágrimas tentam invadir-me os olhos, confesso… Sinto-me como um rio que já não se consegue conter nas suas margens. Como se te tivesse inconscientemente entregue o pilar fundamental do meu equilíbrio. Porque foi o que fiz…
Por mais que lute, por mais que tente, não posso evitá-lo… Este relógio, este mecanismo eterno que mantinha desactivado ganhou vida própria. E como? E porquê… Não tenho resposta, não tenho certezas… Sei apenas que não devia, que não podia…
Receio o que sinto, mas não tenho coragem de o interromper… A cada inspiração, cada lufada de ar que absorvo, cada vez mais tudo se resume a ti.
O meu coração de titânio deixou-se quebrar, deixou-se penetrar… Ah, como o odeio por isso… Por me fazer sentir algo que não devia, algo que não poderia ter futuro. Mas ainda assim, é o que sinto… Tenho um fio do teu cabelo entrelaçado nos meus dias, na minha vida. Preferiria poder olhar-te com certa indiferença, como antes, como era suposto ser… Mas não consigo mais…
Sei que não sou eu, sei que não vale a pena, sei que me enganaria se pensasse que temos um futuro para descobrir… Não é a mim que pertences, pois não!?... Nem é preciso responder… O meu mundo tem menos uma pessoa que o teu, e isso é toda a diferença… Mas estou atado, preso, cimentado neste sentir… E neste momento, neste mesmo momento, sou teu. De ninguém mais, agora ou alguma vez…
É como se tivesse descoberto água no deserto durante uma chuva torrencial… É estupidamente inútil, mas não posso evitá-lo…
Estou apaixonado…
Olho-os nos olhos, paro por uns segundos... Em cada um se faz silêncio, se faz uma ponte. Abrem-me as portas do seu mundo. Fazem-me entrar com honras que me deixam desconfortável, e mostram-me tudo... Tudo... Tudo o que são, tudo o que têm, tudo o que sofrem. E sustenho a respiração para me suster de olhar, para me impedir de avançar. Mas não consigo, não posso... Sou atraído como um insecto pela luz, e aproximo-me dois passos mais. E vejo... Vejo a dor como se me passasse por entre os dedos, sinto-a a enrolar-se pelo meu pescoço. Toco-lhes com algum temor, como se receasse para sempre ficar acorrentado ao seu sofrimento. Falta-me o fôlego e sobram-me braços que não sei onde pôr. E pesa-me o mundo nas costas, uma vida inteira... E sinto medo, sinto o espaço a fechar-se sobre mim. Tudo desaparece e só sobra um pensamento... Quero fugir... Quero desesperadamente fugir. Abrir as minhas asas e escapar sobre a multidão...
Mas não posso... Não quero. Enquanto tento, lentamente, oiço uma pequena voz... Palavras encobertas pelas sombras, que apaixonadamente me tentam alcançar. "Eu sei quem és!"... "Sabes tu também?"... E repete... Repete... Repete... Enquanto procuro a origem das palavras, reparo no que não vejo. No mundo que fechei fora de mim. Em como o medo me envolveu tão repentinamente. E encontro quem se me dirige... E sou eu. Eu mesmo e próprio. O eu que ainda se lembra quem realmente eu sou... E num estilhaçar de luz sobre as sombras, vejo tudo a andar para trás... Pensamentos e medos em reverso, que se desfazem, se reduzem ao nada que sempre foram.
O meu coração sossega. Não lhes viro mais as costas... Não vou dar a outra face nunca mais... Seguro-lhes numa mão, e procuro o seu olhar, a porta para o seu mundo. E deixo-me cair... Mergulho com um sorriso terno no seu íntimo, tentando que a minha alma arda tanto de amor que o seu calor lhes chegue ao peito, lhes afaste o frio da tristeza... Lembro-me de tudo. De como ser, fazer, agir, mover... Como se nunca tivesse feito outra coisa. Como se sempre o tivesse desejado fazer... E desejei. E penso... Um erro? Não... Medo. Medo humano. Medo inútil... Medo que um dia jurei não permitir que me dominasse.
Afinal, as minhas asas nasceram para envolver. Não foram feitas para fugir...

Cheira-me a Primavera... Saio à rua e procuro esse cheiro, esse odor tão familiar... Jogamos às escondidas entre o sol e a sombra das árvores, como se nunca tivéssemos deixado de o fazer. E numa brisa que acompanho com um sorriso, abraço esta velha amiga que regressa uma vez mais... Enquanto espero pacientemente pela noite, sento-me na beira de uma estrada, perdendo-me intemporalmente num sol que se põe... Num sol rubro, que subtil e timidamente se esforça em sorrir por entre as nuvens. Quando o dia acaba, começa uma nova vida. Agarro uma erva alta e separo-a das suas raízes, das suas folhas, até só ficar o caule e o topo... Gesto mecânico que executo já sem pensar... E num movimento confortável e seco, prendo-a pelo caule entre os lábios. Rodando-a silenciosamente, enquanto acompanho com o olhar o topo dos montes tingidos de sangue.
E quando uma corrente de ar frio me entra por baixo da roupa, trinco esse caule...
Trinco-o com força, com vontade... Mordo-o na esperança de que as sensações cruzadas me causem um arrepio uníssono, conjunto, inteiro... Como um tornado que percorre a espinha, que abana o mundo. O meu mundo... Explosão dos sentidos que me faz arquear e fincar os pés no chão. Por momentos sou só eu... Por momentos, liberto-me do mundo com um sabor amargo na boca... Por momentos, posso dizer a plenos pulmões que a erva é amarga, ponto... Por momentos, claro...
Pessoalmente, acho esta música de uma simplicidade e fascínio notáveis. Não é de ninguém particularmente conhecido, mas também não precisa de ser. Não é uma face que sente, não é uma face que sofre, e não é certamente apenas uma face que ama...
Fica um link para quem quiser ouvir como deve ser (pelo menos eu aconselho):
http://www.megaupload.com/?d=XB4B2QA1
E a letra, que me desculpe quem não se sentir muito à vontade com o Inglês. Embora ache o Português uma linguagem mais romântica, e em todos os aspectos artísticos, superior, é difícil resistir à universalidade do Inglês...
Kiss me sweet,
I'm sleeping in silence...
All alone,
In ice and snow.
In my dream,
Im calling your name
You are my love...
In your eyes,
I search for my memory.
Lost event,
So far in the scenery.
Hold me tight,
When Spring time comes again
We'll never be apart...
If you could touch my feathers...
Softly...
I'll give you my love.
We set sail in the darkness
Of the night,
Out to the sea.
To find me there...
To find you there...
Love me now,
If you dare...
Kiss me sweet,
I'm sleeping in sorrow...
How I long,
To see you tomorrow.
In my dream,
I'm calling your name...
You are my love...
My love.

Chego a casa como se me tivesse libertado de um peso do tamanho do mundo... Desde quando é que viver deixou de ser um prazer, e se tornou uma dolorosa imposição própria? Não sei... Demasiadas coisas acontecem sem que tenha tempo para as seguir, olhos com que as ver, e mesmo um coração com disponibilidade para as sentir.
Sento-me por instantes no sofá, mas o conforto leva a melhor de mim. Fico momentos apagados a olhar para a televisão, aquele estranho objecto que há muitos anos atrás ainda conseguia fazer-me certa companhia. E sem dar por isso, fecho lentamente os olhos... Deixo cair o telecomando num estrondo que já não vou a tempo de ouvir. E mergulho na escuridão, no doce silêncio. Por instantes, parece que todo o universo está sob o meu simplório domínio. E está. O meu universo inteiro fecha-se num mundo muito meu. Num mundo onde existo em paz. Onde posso viver sem reservas. E sonho...
Sonho como se o fizesse pela primeira vez. Como se sempre o tivesse feito. E transporto-me a paisagens familiares, a simples regatos que escorrem do meu passado. Com a paz e a distinta serenidade de um reencontro, caminho sobre a erva verde, em direcção à pura corrente de água. Recordo estar calçado, como uma mancha de recordação da fria realidade. E enquanto olho para baixo, vejo atacadores animados de vida soltarem-me das amarras terrenas. E sigo lentamente, deixando um par de sapatos vazios para trás. Não olho para trás, nem tento. Sentir a erva sob os pés traz-me tantas recordações como lágrimas aos olhos...
E olho o horizonte, procurando seguir o som de água em movimento que não existe, tapando desastradamente a face de um sol que só eu sinto. Deito-me no chão como se pesasse toneladas, de barriga para baixo, deixando a cabeça suspensa sobre a água. Procuro o meu reflexo, mas apenas esboço um sorriso... Sorriso de saber que os reflexos não têm reflexo. Sorriso de saber que desta vez sou eu do outro lado do espelho.
Viro-me ao contrário, procurando ficar o mais próximo possível da água, mas olhando o céu. No fundo, é apenas puramente natural... Sou só um idiota simplório que gosta de perder os seus dias a ver as nuvens a passar... Sou só um idiota simplório que gosta de perder as suas noites a contar estrelas... Sou só um idiota simplório que não sabe como viver sem ser ele próprio, mas que também não consegue ser ele próprio enquanto vive.
E num pestanejar irrompe nova tempestade, nova vaga de chuva, novo vento revoltado. E misturo as minhas próprias lágrimas com a chuva, o calor com o frio. Arrepio-me como se realmente me importasse. Mas sorrio... Só posso. Só quero.
Mordo o lábio com força para saber que estou vivo, para saber que quero viver... Mesmo por não me querer perder, ainda que nem sempre me encontre. Ainda que na verdade me desencontre. E acordo... Regresso ao mundo verdadeiro. Não me sinto mais cá do que antes... Mas sinto-me mais em paz. Embora as memórias me afundem, também me revivem ocasionalmente. E embora tudo passe num sorriso... Numa só alma cabem mundos inteiros.

O que procuramos todos afinal?... Amor? Alguém a quem amar? Mas no fundo, essa pessoa não acaba por ser parte de nós!?...
O que procuramos em alguém é a parte que nos falta.... Aquele canto, naquela fotografia velhinha, meio apagado pelo tempo e pelas mágoas. Metade de um Sol poente, cujo esplendor comum nos ilude sobre a sua completa beleza. Um guarda-chuva esquecido, que salva um calor corporal do frio da chuva. Metade de uma Lua solitária, com a qual esta se torna um escudo de platina que mantém todo um mundo no seu lugar. O tronco de uma eternidade, onde encostamos as costas por toda uma vida...
Para mim, amar é ter vontade de compartilhar um chocolate quente. É afagar a relva, procurando O lugar para que ela se sente. É afastar suavemente uma madeixa de cabelo, que desliza sobre o seu rosto, ao sabor de uma brisa de Inverno. É envolvê-la com os braços, querendo que o meu calor consiga parar os seus tremores. Permanecer ao seu lado no fim do dia, ouvindo as suas histórias, as suas dores. É limpar as suas lágrimas com um gesto carinhoso e seguro, lavando o seu coração com um sorriso. Com a despedida do Sol, refazer velhas palavras de Amor, velhas mas eternas promessas de companheirismo. E com o cair da noite, segurá-la ainda mais forte, espremendo todas as nuvens do seu espírito.
Amar é contar estrelas pelo céu, de mãos entrelaçadas, ignorando tempo e espaço. É levantá-la do chão por uma mão, e segurando-a como se fosse uma orquídea única, dançar... Dançar à melodia do seu riso, capturado pela luz dos seus olhos. Desajeitados e sorridentes. E enquanto os sorrisos cessam de ecoar pela cidade, olho-a nos olhos calmamente, enquanto nos aproximamos de novo. Abraço-a de novo, encostando a face à sua testa. E sinto o aroma dos seus cabelos, que percorro com uma das minhas mãos, rejubilando com a forma como sorri baixinho. Por um momento, dou por mim a desejar que o tempo parasse. Que nada mais mudasse enquanto pudesse suster a respiração. Que morreria asfixiado e feliz.
Enquanto acaricio a sua face, olho-a de novo nos olhos. Sem falar. Sem emitir um som sequer. E sei o que pensa. Sei o que sente. Consigo ver o próprio mundo pelos seus olhos. E, calmamente, aproximo-me dos seus lábios rosados. No meio do frio procuro a sua boca, a sua respiração. E num gesto impulsivo, colo os meus lábios nos seus... E tudo pára realmente. Por minutos, só existimos nós os dois no mundo.
E quando finalmente as nossas respirações se tornam independentes de novo, dou um passo rápido colocando-me nas suas costas. Abraço-a por cima dos seus ombros, enquanto enlaço as suas mãos nas minhas. E com as cabeças encostadas, aponto-lhe o horizonte, a Lua. E murmuro no seu ouvido: "Enquanto esta Terra tiver uma Lua, tu vais ter-me sempre do teu lado".
E ficámos o resto da noite sob um manto de estrelas, esperando uma madrugada que nenhum de nós desejava realmente contemplar...
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